21 de fevereiro de 2010

Entrevista com Kao ‘Cyber’ Tokio, do blog Retrogames Brasil

Essa entrevista seria um conteúdo exclusivo da revista digital Game Nostalgia, mas, infelizmente a revista não saiu dos "papéis". Porém, tudo que tinhamos preparado para esse projeto, de forma alguma será perdido, pois estaremos postando tudinho aqui mesmo no blog!
Fique agora com uma excelente entrevista realizada por Bruno Oliveira, onde o entrevistado, Kao Cyber (autor do também excelente blog "Retro Games Brasil" e designer de games) fala um pouco sobre o seu trabalho com Game Design aqui no Brasil; sobre retrogames; a presença do Brasil no mercado de jogos e muito mais!!!
Boa leitura!

http://retrogamesbrasil.blogspot.com/
por Bruno Oliveira


Game Nostalgia: Kao, é um grande prazer, para nós do Game Nostalgia, contar com sua participação nesse novo projeto. Fale um pouco de você para nossos leitores: sua formação, suas influências e os trabalhos (profissionais) que desenvolve atualmente.

Kao Cyber: Olá! Antes de mais nada, obrigado pelo convite. É sempre um prazer falar sobre o jogos e, em especial, os retro-jogos! Minhas influências começam muito cedo, desde antes do advento dos games, como os conhecemos hoje. Tive a feliz oportunidade de conhecer o salão de jogos do Palace Hotel em Poços de Caldas, desde o final dos anos 60 e este foi, certamente, meu promeiro contato com os fliperamas e máquinas eletrônicas de jogos (conheça um pouco desse acervo clicando neste link: http://s11.invisionfree.com/Ratos_de_Fliperama/index.php?showtopic=8). Outro foco que me despertou a atenção foi também o Playcenter, que visitei pela primeira vez em 1973. Lá, havia uma enorme tenda com várias máquinas de fliperama eletromecânicas da década de 50 e 60. Lembro-me de uma cabine em especial que era uma simulação de jogo de corrida, em que o carrinho era pintado sobre uma tábua, que ficava à frente de uma lona pintada com carros e outros obstáculos, que rodava em loop, como se fosse a pista de corrida e contava ainda com um volante de verdade e um pedal que “acelerava” a velocidade da pista. Não sei como eram contabilizados os pontos da “corrida”, mas era uma máquina que me fascinava, por ser um misto de eletrônica atual com aquele visual meio Julio Verne.
Sou formado em Educação Artística e Artes Cênicas, com uma especialização em Mídias Interativas. Esta formação tem, com certeza, grande influência em minha pesquisa atual sobre as narrativas digitais, heróis e vilões para games (aliás, em 02 de setembro, estarei no SESC Araraquara, palestrando sobre o tema, dentro do projeto Game Cultura. Se estiver por lá, apareça!).

GN: Agora, sobre o seu interesse por retrogames. Você consegue dizer por que motivo(s) é cativado por esses jogos? Quais são os games que você costuma jogar?

Kao: Sempre gostei de jogos e brincadeiras. Era muito ligado aos primos quando jovem e pude jogar muitos jogos de tabuleiro. Em meados da década de 70, conheci os primeiros árcades eletrônicos de game, como Pong, Gun Fight e Tank (um clássico). Na minha opinião, estes jogos, e mais outros clássicos como Pitfall, Pacman, Space Invaders etc, são a base essencial dos jogos eletrônicos. É a partir deles que se criou este gigantesco mercado. Mesmo sendo antigos e até fora de moda, estes jogos apontam desde cedo para o que é importante em um jogo: eles têm que ser divertidos, atraentes e simples. De modo geral, o grande trunfo do Wii da Nintendo, foi essa retomada do funfactor, isto é, perceber que um game não é composto somente de desafios e milhões de polígonos: eles têm que ser acessíveis e divertir a todos!
Ainda hoje, gosto muito de Pacman, King´s Quest e Commander Keen. Mas não dispenso alguns jogos de 8, 16, 32, 64 e 128 bits! Fica ainda uma menção honrosa para Sonic e Toe Jam & Earl, dois clássicos de 16 bits.

GN: Em seu blog, Retrogames.br, você apresenta muitas iniciativas de criação de produtos e softwares (alguns deles sendo jogos, de vez em quando) com a temática retrô. Qual a importância desse tipo de projeto, atualmente? Você acha que algo se perdeu ao longo da história recente do desenvolvimento de jogos?

Kao: Como eu disse, os primeiros jogos mostraram o caminho mas, em algum ponto, a indústria se perdeu. Até mesmo os RPGs ficaram tão envolvidos com as tramas de seus roteiros, que perderam parte da diversão e acabaram virando projetos de nicho (como alguns Final Fantasy). Entenda que não sou contra os games hardcore. Acho super bacanas iniciativas como Bioshock e Burnout, mas vejo que, se não soubermos dosar os desafios, os games ficarão cada vez mais restritos ao gueto “gamer” e, lamentavelmente, marginalizados.
Paralelamente, entendo que todo jogador de games nutre o desejo de ser – ele também – um designer de jogos. Com as plataformas atuais está cada vez mais difícil de isso se tornar realidade, mas um monte de iniciativas geniais disponibilizadas na rede, permite que este sonho torne-se concreto. Tudo o que faço através do blog é encontrar e divulgar estes projetos. Se, de cada cem leitores, um começar a fazer sua versão mequetrefe do Super Mario, estaremos caminhando para algo melhor e mais democrático amanhã, concorda?

GN: Concordamos! Agora, a respeito do cenário nacional, você acredita que o Brasil pode estabelecer uma forte presença no mercado mundial, tanto como mercado consumidor quanto como na área de desenvolvimento de jogos (além daqueles feitos para dispositivos móveis)? O que os desenvolvedores brasileiros poderiam acrescentar aos jogos para se tornarem únicos e admirados?

Kao: Nosso mercado é pra lá de complicado. Infelizmente, a falta de iniciativas governamentais e empresariais no país levou fatalmente a este quadro. Lembro que, nos anos 80, em pleno Boom da informática, o governo da ocasião implantou um instrumento de controle chamado “reserva de mercado”, que impedia a entrada de produtos importados, propondo o aprimoramento do parque tecnológico nacional para este imenso mercado interno. Na prática, ficamos 20 anos defasados, perdemos a corrida dos chips e mal somos fornecedores de software.
Hoje, temos nova oportunidade, com a disseminação do conhecimento através da rede e a natural facilidade do brasileiro de se adaptar às novidades contemporâneas. Mas há muito a ser mudado: os impostos sobre a mídia eletrônica são assustadores e os games ainda não são vistos como cultura, mas como mero entretenimento juvenil. Se isto não mudar, ficaremos mais uma vez na pré-história digital.
Por outro lado, vejo os poucos desenvolvedores nacionais com muita garra e desejo de vencer. São profissionais competentes, criativos e muito ousados. As empresas estão aprendendo rápido o perfil do consumidor nacional e estrangeiro e, se depender de nós, temos tudo para acompanhar os projetos internacionais. Já há muitos jogos para celular e web produzidos no país, muitos jogos de treinamento para empresas e até mesmo alguns games para DS e Wii. Se tudo correr como esperado, também o Zeebo da Tectoy deverá disponibilizar em breve seu pacote de desenvolvimento para as empresas nacionais. Aí, se segura, mano! Brasil-IL-IL-IL-IL!!!

GN: Cite alguns jogos que marcaram sua vida. Pode ser de arcades, consoles, portáteis etc. E porque eles foram tão marcantes para você?

Kao: A resposta já está aí, nas perguntas acima. Sou fã de Toe Jam & Earl e Sonic, ambos de Mega Drive, gosto ainda hoje de Super Mario, Pacman, Donkey Kong, Pong, Enduro e muitos outros da velha geração. Entre os jogos atuais, gosto de Rayman Raving Rabbids para Wii e Rock Band 2, completo! Não há nada melhor que desafinar com o Steven Tyler, eheheh!

GN: No post “Comece bem o seu dia” (http://retrogamesbrasil.blogspot.com/2009/03/comece-bem-o-seu-dia.html), você apresentou produtos curiosos (cereais, cookies e até macarrão) que exploravam a identidade de alguns games e seus personagens. Você acha que os modelos atuais de gestão do game design (principalmente aqueles adotados por empresas dos Estados Unidos) ajudam ou prejudicam a qualidade dos jogos? Menos games significaria melhores games?

Kao: Uau, que pergunta difícil! Será que menos games significa melhores? Não sei... Mas é fato que o Crash de 83 se deu pela falta de originalidade e pela repetição infinita de fórmulas dos jogos. Acho que o mercado ainda é incipiente, ainda não sabe muito bem para apontar suas armas... É por isso que adventos como Wii e Guitar Hero mexem tanto com esta área: eles acabam mostrando novos caminhos. Acho que a indústria ainda é muito tímida em experimentar novos modelos de design de games e errou seriamente no passado ao acreditar que só tornar os jogos visualmente mais realistas seria o bastante para amadurecer o meio. Hoje, não pode produzir jogos com baixa capacidade poligonal sob o risco de ser acusada de fazer jogos ultrapassados e não pode dar vazão ao novo, temendo desperdiçar milhões de dólares em algo que não vende. Okami e Mirror´s Edge estão aí para mostrar como é difícil (e caro!) experimentar.

GN: Para finalizar, nos fale um pouco sobre o que você pretende fazer com relação à produção de conteúdo sobre game design no Brasil. Você pesquisa bastante sobre o assunto, já ministrou palestras em eventos (como desenho de personagens, game design para jovens e crianças, interatividade e relações sociais), além de manter um blog muito rico. Tem planos de escrever livros ou lecionar nos cursos superiores de tecnologia/design de jogos?

Kao: Opa! É esta a hora do merchandising???  Sim, para ser franco, sou muito mais pesquisador do que jogador de games (não tenho muita paciência para apanhar da garotada no Half Life, eheheh) e gosto muito de escrever a respeito. Há pouquíssima literatura sobre games no mercado nacional e boa parte dos livros é técnica, ensinando como programar jogos. Não há nada de errado com isso, mas entendo que há muitos aspectos da criação que devem ser considerados, como os contextos narrativos, design e perfil psicológico dos personagens, game world e muitas, muitas coisas que podemos apresentar aos candidatos a game designer e que certamente irão ajuda-los na confecção de um produto tão rico, dinâmico e trabalhoso como um jogo eletrônico.
Por fim , respondendo à sua pergunta: sim. Pretendo lecionar (talvez já a partir do ano que vem) e tenho dois temas para livros que estão na pauta para começar a escrever. Não posso dar detalhes do conteúdo ainda, mas se você (que está lendo esta entrevista) já participou de alguma de minhas palestras ou andou lendo meus artigos no Game Cultura, não terá dificuldade em pegar os temas.

GN: Muito obrigado por sua participação, Kao! Ainda há muito o que falar sobre games, por isso, esperamos contar com sua presença, outra vez, em futuras edições da revista Game Nostalgia. Gostaria de deixar algum recado para nossos leitores – talvez especialmente para aqueles interessados em estudar design de jogos ou se tornarem game designers?

Kao: Recado? Sim: não deixem a peteca cair! Criar um jogo pode ser tão divertido quando jogar! Exercite sua criatividade bolando jogos desenhados no papel, recriando as regras de um jogo tradicional de cartas ou dominó, e imaginando como você faria seu próprio game, cheio de desafios, quebra-cabeças, fases, inimigos, armas e com um final surpreendente, igual aqueles das melhores novelas e filmes. Todo aprendizado vale à pena e sempre vai acabar sendo útil. Saiba aprender se divertindo! Aperte Start e continue jogando!
Abraço a todos e força total para a galera do GN! Valeu!!!

"Kao Cyber é pós-graduado em Mídias Interativas pelo Senac São Paulo, trabalha na área de Game Design e frequentemente ministra palestras e oficinas sobre o assunto em eventos como SBGames, RPGcon e outros. Autor do blog Retrogames Brasil, Kao escreve o blog com o propósito de levantar um registro arqueológico dos 8 bits e tenta desvendar o que seus criadores tinham em mente ao projetar um game, muito antes do termo Game Design tornar-se um chavão."

11 Comentários:

Kao 'Cyber' Tokio disse...

Olá, galera!!!
Puxa, lamento que a revsita ainda esteja no "prelo" (alguém sabe o que é isso???), mas fiquei super contente com o aproveitamento do material!
Agradeço a amizade e a oportunidade de falar de um tema tão querido como Game Design e Retro Games!
Super abraço a todos!!!

Sabat disse...

que pena que não saiu a revista heim!!

Mas a iniciativa de colocra a entrevista no blog é muito bem vinda ^^

E por sinal, bela entrevista!!

Albatross disse...

O Kao sabe do que tá falando. Excelente entrevista e excelente blog tbm (Retrogames).

Anônimo disse...

Muita boa a entrevista!
Linkei o blog de vocês no http://baudovideogame.wordpress.com/
Se puderem linkar aí também, ficarei agradecido!

Magazine Games disse...

Eu também adorei... muito conteúdo de gente experiente no assunto design de games, eu gostaria de ter o basico para desenvolver games caseiros, hj em dia nem sou tnt jogador assim, mas sempre ando participando do movimento gamer nacional... vai la brasilllll

Magazine Games disse...

Agora eu só estou com uma duvida e vou perguntar...
O que é aquilo que ele esta segurando? o da mão direita é um cartucho de Atari com uma alça? E esse disco com as 4 cores? Serve para que? KKKK... alguém ai sabe me dizer?
Sou menino mesmo viu kkkk,

Kao 'Cyber' Tokio disse...

Falaê, minha gente!
Obrigado pelas gentis palavras e opniões...
Agora, respondendo às perguntas:
O cartucho é um legítimo "Didi na Mina Encantada", com aventura do personagem de Renato Aragão exclusiva para o Odissey nacional.
Já aquele coisa redonda eu acho que é uma calota de pneu meio psicodélica :D
Grande abraço a todos!

Toper Breath disse...

Hauhahahauha calota de pneu psicodélico foi legal!!! ótimo senso de humor heuhuhe!!
A calota psicodélica que o Kao se referiu é o Genius!! Nesse site você consegue ver uma versão online do antigo joguinho da memória !!
http://motorola-radio.blogspot.com/2009/10/genios-on-line.html

abraços

José Augusto F° disse...

Bela entrevista. Kao, o que mais te intereressa nesse mundo dos games? Eu percebo que para mim, o mais interessante tem sido a filosifia da criação, as pesquisas, a formação da idéia original, as influências, etc...
Isso é tão forte que, na maioria das vezes, o jogo fica em 2° plano.

João Fróis disse...

Ai amigo, tudo bem? :D

Mudei de blog, dantes estava no 2manygameplayz.blogspot.com e agora tenho um novo:

http://animesourcetuga.blogspot.com/


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Abraços

vicio em bakugan disse...

galera entra no meu blog tbm viciobakugan.blospot.com